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Monthly Archives: Janeiro 2009

rachel_weisz02 In her first passion woman loves her lover:

In all the others, all she loves is love.

 

Lord Byron, Canto III

 

 

Foto: Rachel Weisz

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Por Espanha, em breve, ele irá andar em mãos granadinas. Por cá, fica para quem o quiser ler. Foi (re)criado precisamente em Granada, a partir da exposição de Paco Sánchez como ali em baixo conto. As fotografias e os seus textos originais podem ser vistas/lidos aqui. O que fica em seguida é a minha versão.

 

Lisboa, nostalgia do futuro

A partir da exposição de Paco Sánchez

 

há um pressentimento de sono sem fim
refugias-te num quarto de pensão e dormitas
o dia todo – para que lisboa te esqueça

Al Berto, lisboa (4)

 

 

I

 

o mar engole as ruas de lisboa e tu acordas perdida

na cidade

acordas perante o resplandecer copular da pedra

a velocidade interminável da luz

a saudade da voz que te comunica o ranger dos corpos

 

há sempre na cidade um excesso de sílabas

uma página sem língua sem sentido caligráfico

as ruas virgens e a voz

sempre a voz anunciando-te:

 

serás o sabor inquieto da noite, o perfil atlântico da cidade e o poema que se despede nos teus lábios.

 

serás o destino dos homens melancólicos, a amante marítima dos povos distantes e serás, acima de tudo serás lisboa.

 

II

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

aceso de um fogo astrológico sedento de amor

sedento de uma constelação mais distante mais clara

de uma luz secular onde a arte antiga do tempo envelhece

o perfume matinal deste nosso jardim

 

eu sou a imperfeita vertigem da morte, tenho

nas mãos o sorriso aberto das palavras.

 

por ti cantei inúmeras memórias de crianças,

deixei meu nome voar entre a boca dos marinheiros

e

repito com o esplendor do rio o vento que se ergue

na derradeira colina.

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

diluído com o inexistente sangue com o vermelho

efervescente de um crepúsculo qualquer

desconfio que eles se confundem com a esquina

incendiada do mundo

 

no meu leito nasceram os alicerces desta terra, do meu ar respiram os amantes o seu fruto de cada manhã.

 

o meu amor é antigo, antigo como os versos do mar.

ouve: percorre pela névoa branca o caminho da luz,

nestas ruas esperam-te poetas renascidos pela saudade

da cidade

 

III

 

o mar engole as ruas de lisboa e tu acordas perdida

no tejo

acordas ao movimento dos barcos a formação rítmica

da cidade a despertar de um sonolento partir

que trazia o regresso escrito nos portos

 

amanhece e o reflexo dos vidros desvenda a silhueta

reflexo azulado de um rio faminto cujas águas

não se cansam com o tempo e a tempestade

sussurra nos nosso ouvidos como uma profecia:

 

nos teus braços nossos filhos falarão de amor, pela palavra irão percorrer os corpos virgens da voz.

 

de ti os poetas irão criar uma mulher, dar-te-ão sexo e a sensualidade tímida de uma amante cujo nome se lê nas ruas.

 

IV

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

há uma pausa simétrica um vago som que pelo dom

não permite o fluir da canção

há um mar que pelo ar repreende a palavra sem tristeza

sem brilho ou coração

 

tens na morte o refúgio prometido pelas estações,

pela crepitação vertiginosa da terra.

 

viajas ao sabor do vento, permites que outros povos

te penetrem e usem o teu corpo sabendo bem

ou

desconhecendo o nome por quem todas as manhãs

os homens acordam.

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

na ressurreição do outono cumpre-se o ciclo

cumpre-se o desfalecimento dos braços de teus filhos

o tardar das chuvas e dos anos em que vagarosamente

dançámos ao som do tejo

 

que as flores te cubram a pele, esconda o teu corpo

de sedentas estrelas.

 

o meu amor é antigo, antigo como os versos do mar.

imagina: em ti se irá erguer um país, um país

tão grandioso como a tristeza dos pássaros fechados

na cidade.

 

V

 

o mar engole as ruas de lisboa e tu acordas perdida

na palavra

o silêncio flúi como uma vagarosa nebulosa acende-se

a lua nas linhas impossíveis de um solo uma árvore cresce

e dos seus frutos ergo a última sílaba de lisboa

 

procuramos escrever a oscilação do corpo a flexibilidade

da linguagem urbana personificada nas travessas cintilantes

e tu sempre tu

retornas ao abismo nostálgico do grito:

 

o dia caminha para uma constelação que nunca ousei visitar, onde perdi a agonia matinal de te esquecer.

 

tens no olhar a forma do universo, como se uma palavra germinasse segura em teus dedos invioláveis.

 

VI

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

a exactidão jubilante do fogo irrompe as trémulas réstias

da noite pintando-a de vermelho cor da génese e do

amor perpetua-se a luz até ao último canto

ao último verso do poema lisboa

 

escreves e descreves na tua pele cada pessoa que te habita,

cada segredo nocturno dos teus nómadas.

 

deambulas perante um verbo absoluto, acreditas

no retorno irredutível do mar, de seus marinheiros

e

deixas-te aportar sobre um solo envelhecido

levemente beijados pelas aves.

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

mais outro Inverno vibrará perante o instrumento

tocado pelas árvores o vento delicadamente interiorizando

a matriz central onde albergo os hóspedes eternos

desta e outras minhas canções de lisboa mulher

 

partes para beijar os seios puros da colina, anoiteces

ciclicamente como as estações.

 

o meu amor é antigo, antigo como os versos do mar.

ama: no sémen resta o verso livre de um poema

anónimo, um poeta sem forma e sem sentido senão

o de te amar.

 

VII

 

e acordas lisboa:

 

a ondulação do corpo que o tejo te seduz

o pássaro cuja asa ao vento nunca se reduz

dum sopro cósmico onde a liberdade se respira

uma frágil dança rodeando uma serpente admira

a ténue fronteira entre o que digo e o que direi

foi nesta terra insegura onde cresci e sonhei

e és lisboa caligrafia das constelações distantes

sinfonia poema e mulher de inúmeros amantes

 

aprendes a escrita dos poetas e com eles fabricas a última

morada das palavras.

 

fixas o solo em teu corpo, inscreves lágrimas subterrâneas

nos túmulos dos deuses.

 

o mar engole as ruas de lisboa e tu acordas perdida

em ti

esqueces o último habitante que te abandonou e amas

amas como quem nunca mais viverá uma paixão igual

amas como lisboa sempre amará a ávida paginação

do silêncio

 

serás o sabor inquieto da noite, o perfil atlântico da cidade e o poema que se despede nos teus lábios.

 

serás o destino dos homens melancólicos, a amante marítima dos povos distantes e serás, acima de tudo serás lisboa.

 

 

rui alberto

 

 

 

21_xi_2006é sempre noite na cidade agora que o
movimento se cristaliza
em parede de papel
o instante ou o detalhe o mesmo homem em
movimento
subterrâneo

M. Tiago Paixão

 

Foto: Sophia Pereira, 21 XI 2006

lady-north1

São assim as coisas simples: tão simples

como o sol que bate nos teus olhos, para

que os feches, e as coisas simples passem

como sombra sobre as tuas pálpebras.

 

Nuno Júdice, Tarde com Sol

 

 

Foto: Francisco Vilhena, Lady North

Foram hoje divulgados os nomeados aos Óscares deste ano. A saber:

 

Melhor Filme:

The Curious Case of Benjamin Button

Frost/Nixon

Milk

The Reader

Slumdog Millionaire

 

Melhor Actor:

Richard Jenkins

Frank Langella

Sean Penn

Brad Pitt

Mickey Rourke

 

Melhor Actriz:

Anne Hathaway

Angelina Jolie

Melissa Leo

Meryl Streep

Kate Winslet

 

Melhor Actor Secundário:

Josh Brolin

Robert Downey Jr.

Philip Seymour Hoffman

Heath Ledger

Michael Shannon

 

Melhor Actriz Secundária:

Amy Adams

Penélope Cruz

Viola Davis

Taraji P. Henson

Marisa Tomei

 

Melhor Realizador:

Danny Boyle

Stephen Daldry

David Fincher

Ron Howard

Gus Van Sant

 

E como toda a gente, também eu tenho as minhas apostas. Confesso que seria uma desilusão enorme principalmente se Mickey Rourke não vencesse. Não será certamente o melhor actor de todos aqueles, mas Aronofsky faz milagres…

matisse_and_model_by_brassai

eu observava. ela dançando, matisse sentado

diante de si

eu era a terceira pessoa

podia também ser a primeira, ou, claro,

a única. é tudo uma questão de perspectiva.

 

Hugo Milhanas Machado, A fotografia de Gilbert Grassai [a que não existe]

 

Foto: Gilbert Brassai, Matisse and Model

nozolino1
Escrevo-te
porque decidi partir hoje e serei por portos incertos
um vagabundo de brandos labirintos

 

Rui Alberto, Sexto

 

 Foto: Paulo Nozolino, sem título

Paulo Nozolino volta a expor em Lisboa, 8 anos depois. “bone lonely” na Galeria Quadrado Azul,  até dia 21 de Fevereiro.

charlotte-gainsbourg

Dá-me uma paz de eternidade ver uma mulher numa casa, o modo como o seu corpo habita o espaço, a forma como vestem, de si mesmas, os compartimentos, com um simples passo, um simples olhar. E depois uma espécie de inocência primordial, de leveza habitável: devo ter sido muito feliz na barriga da minha mãe, por dentro da sua voz, do seu sangue.

 

António Lobo Antunes, Eu, às vezes, Crónica.

 

 

Foto: Charlotte Gainsbourg

notredame2

as capitais da terra, uma a uma,

desfeitas em rumor e negra espuma,

atingidas de noite no seu centro;

mas nunca vi paris contigo dentro.

 

 

António Franco Alexandre, Duende

 

 

 

Foto: Henri Cartier Bresson, Notre Dame

taxiSomeday a real rain will come and wash all this scum off the streets.

Martin Scorsese, Taxi Driver, 1976

 

em tempos de crise, valha-nos os clássicos