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Na primeira, e única, crónica que publiquei, na webzine Serpente, decidi dar como tema o que me desagradava, e ainda desagrada, no mundo literário. Uma postura, uma falta de honestidade, um querer ser. Não se pode querer ser, ou se é, ou não se é. Tal como não há talentos puros, há sempre muito trabalho por trás. Mas existe algo. Vocação, jeito, o que lhe quiserem chamar. Quando publiquei Parabola Abyssus, acreditava no que estava a fazer. Desde então, Maio de 2007, não voltei a publicar, tirando um conto na Callema e outros dois na Entre o Vivo, o não vivo e o morto, casas que conheço muito bem. E durante todo este tempo muito me perturbou o não estar a conseguir escrever, e quando o fazia, não acreditava no que estava a fazer. Falta de jeito, conclui. Hoje, relendo essa crónica que evoquei, percebo que não podia ter sido mais honesto comigo próprio. Ou se é, ou não se é, e se não tiver de ser, paciência. Nunca irei forçar nada. Há bons jovens poetas, que precisam de bons jovens críticos que os leiam e se soltem das amarras pessoais, das invejas. Como falava outro dia com o J., há uma cadeia que impede pessoas de gostarem do que outras fazem. Isso não é literatura, isso é outra coisa. Como não ler um livro e dizer que ele é o primeiro grande romance do nosso século. Está ao mesmo nível. Este desabafo todo não serve para justificar o meu silêncio, a quem aqui vem e volta. Serve sobretudo para dizer que ainda acredito na possibilidade de se ser, apenas por se ser. Sem querer ser, sem parecer ser, sem fazer por ser. Haverá algo mais honesto?

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5 Comments

  1. Já ninguém liga à necessidade. mais fácil é a produção, e os frutos aparentes que ela dá, que a criação…

  2. OBRIGADA!!!!!!!!!!!!!

  3. Manda pastar, bufa em cima.

  4. ‘Pois é, o Jorge de Sena não era uma presença confortável. E sim, de acordo, era um homem de excessos. Também de extraordinária delicadeza, de invulgar generosidade para outros escritories e académicos, gostasse deles ou não. Mas era impiedoso para intelectuais fraudulentos e como, além de tudo mais, tinha o dom da invectiva, pagou por isso, porque a mediocridade nunca perdoa à grandeza e qualquer pretexto lhe serve para achar que tem razão, como a mediocridade sempre quer ter. Jorge de Sena sabia que por vezes não tinha razão, que muitas vezes é necessário correr-se o risco de não ter razão. Para, de vez em quando se poder ter.’
    Helder Macedo, ‘Pretextos’, in Jornal de Letras (23 Setembro – 06 Outubro 2009), p. 27.

  5. Ora aqui estão, umas boas verdades!

    É pena que em mar de tão grande pescado, não se vejam anzóis e redes para amparar as quedas. ahahhahahhahahah

    Um autor para além do trabalho e solidão da sua obra, que sentirá, terá ainda o esforço adicional de abstecer-se do consumo das conservas enlatadas, dos elogios sem fundo, e das críticas que em nada acrescentaram ao seu prosseguimento e amadurecimento.

    E, sinceramente, sempre me pareceu que há engodos bastante para aprimorar o ‘pseudo-intelectualismo’ dos jovens que se iniciam, por aqueles que comandam, se assim se pode chamar, ‘o panorama literário’. Um livro, dois, máximo três publicados e arderam. Ou então andam a vida toda a ‘vender o mesmo peixe’ e nunca mais se calam.

    Enfim, cada um, decida a que túmulo quer pertencer.


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