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Category Archives: citizen kane

2004-Mar-Adentro

Mar adentro,
mar adentro.

Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
‘más adentro’, ‘más adentro’
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

 

Ramón Sampedro, Mar Adentro

 

Foto: Alejandro Amenábar, Mar Adentro

Há certos filmes que vimos no cinema, compramos o dvd quando este sai, e mesmo assim ficamos em casa a ver quando dão pela primeira vez na televisão. Confesso que não me lembrava do último filme que me tinha feito realizar tal ritual, contundo ontem Control do holandês Anton Corbijn foi motivo suficiente. Sendo fã de Joy Division, poderá ser um pouco suspeito a minha devoção a um filme que relata os últimos anos da curta vida do seu vocalista, Ian Curtis. Este não é um filme sobre os Joy Division, não deixando de o ser ao mesmo tempo. Este é um filme sobre o mito de Ian Curtis, que vive sem os Joy Division, se bem que o contrário não acontecerá, com o devido respeito aos Senhores Bernard Summer, Peter Hook e Stephen Morris. Mas a verdade é que a banda terminou naquele instante em que a corda cortou a respiração de Curtis.

Como matéria prima, Corbijn fez-se acompanhar da biografia escrita pela viúva Deborah Curtis, Touching from a Distance (publicado entre nós pela Assírio & Alvim, com o título Carícias Distantes). Felizmente, conseguiu afastar-se dessa mesma biografia e introduzir alguns factos dados por mais amigos e companheiros que viveram perto de Ian Curtis. Felizmente porque a biografia de Deborah Curtis é bastante enfadonha, num constante “ele era uma besta mas eu amava-o por ser diferente”. Já a tendo lido há alguns anos, hoje decidi pegar-lhe novamente e apenas reforcei essa ideia já presente. Se o homem era uma besta ou não interessa-me muito pouco.

O filme de Corbijn aposta mais na criatividade e na tragédia, no lado mais romântico(no seu sentido literário e não de comédia com a Meg Ryan) e mítico que se foi construindo em volta da figura de Curtis. Terá certamente outro sabor a quem conheça bem a sua obra assistir a este filme e, verdade ou ficção, a construção em volta dessa mesma obra consegue ser credível e manter em bom ritmo a trama. O trabalho fotográfico é magnífico, transportando o espectador para mais próximo do tempo e do espaço, colocando-o em Manchester, finais dos anos 70. Os planos em volta de Curtis são memoráveis e nesse aspecto valeu muito o facto de Corbijn ser sobretudo conhecido pelo seu trabalho enquanto fotógrafo.

Dos actores, destaque evidente para Sam Riley, mais do que fisicamente parecido, é estrondoso no olhar distante e perdido que se pretendia transpor. Já Samantha Morton deixa-me algo desiludido, sabendo perfeitamente que a personagem de Deborah Curtis poderia ser muito melhor explorada. Parece que houve alguma contenção. Já Alexandra Maria Lara bastava-lhe aparecer para nos fazer recordar a sua presença, contudo está em bom nível como Annik, a suposta amante de Ian (e que eu continuo a acreditar sendo a destinatária de Love Will Tear Us Apart apesar de no filme, e na biografia, não ser essa a ideia que nos dão).

Não darei polegares para cima, nem estrelas, nem escalas de 0 a 10, mas creio estar seguro de dizer que Control é um filme para se ver com atenção e prazer, que ultrapassa em muito certas biopics que se vão fazendo. Para muito mais que apenas fãs de Joy Division.

 

 

Nota: logo de seguida deu Last Days de Gus Van Sant, cujos primeiros dez minutos me embalaram para uma bela noite de sono. Da primeira vez ainda consegui aguentar creio que meia hora. Muita desta aversão poderá ser explicada no post 41.

barfly

Wanda: I can’t stand people, I hate them.
Henry: Oh yeah?
Wanda: Do you hate them?
Henry: No, but I seem to feel better when they’re not around

Charles Bukowski´s Barfly

este blog não é do clube de fãs de Mickey Rourke, apesar de parecer.

A poucas horas da cerimónia dos Oscares, leio e vejo em alguns programas de antevisão os habituais prognósticos sempre com tanta certeza. Confesso que este ano concordo com a maioria dos especialistas e as suas aposta, menos naquela que à partida me pareceria mais óbvia:  aparentemente é unânime que Heath Ledger não deveria ganhar o Oscar de melhor actor secundário. Não é que ache ter sido um actor fenomenal, que não foi –  apesar de bons desempenhos em Monster´s Ball  e Brokeback Mountain – o seu papel em The Dark Knight é imaculado e sem dúvida um dos marcos recentes do cinema mais mainstream. Capaz de o desculpar por filmes como 10 things about you ou A Knight´s tale.

Quem viu o filme de Christopher Nolan sabe que se trata de uma actuação de um vida (no caso dele, tomando estas palavras um tom trágico), de uma interpretação impar de um dos mais complexos vilões da 9ª arte, e até de toda a literatura. Creio não ser exagerado dizer que ultrapassa a já muito boa faceta que Jack Nicholson havia dado no filme de Tim Burton, 20 anos antes. É um Joker psicótico, enigmático, mas sobretudo que personifica toda a metáfora do filme. Memorável quando Alfred diz a Bruce Wayne que “Some men just want to watch the world burn“, e em que finalmente percebemos a tagline Why so serious?, onde constatamos que nada está deixado ao acaso. Nesse sentido, muito pouco se pode apontar ao filme. O grande desafio era sem dúvida entrega toda a eficácia do filme a um só actor/personagem. E não será esse o intuito de premiar alguém enquanto actor, de reconher a excelência na representação de uma personagem que se difere e sobressai de todos os outros?

Não dever ser premiado por estar morto e sim premiar um dos vivos? Não me parece um argumento forte, na minha opinião. Não ganhando Ledger todos apontam para Robert Downey Jr., que me parece uma tremenda injustiça. Não obstante estar muito bem em Tropic Thunder e ser de louvar nomear um actor que representa um personagem satírico, em comparação com Ledger não tenho dúvidas que não estão ao mesmo nível. Não tendo visto ainda Doubt não me poderei pronunciar sobre as hípóteses de Seymour Hoffman, contudo não tenho dúvidas que será um grande papel já que se trata de um dos melhor actores no activo.

Que a academia e os seus falsos moralismos não atribuam o Oscar a Rourke já não me admiraria nada, mas não creio que tenham em conta o argumento do “está morto, logo não deve ganhar” para retirar o prémio a Heath Ledger. A única situação que me parece viável para tal não acontecer será se este prémio for para Seymour Hoffman, já que será o único que vejo capaz de suplantar a fantástica actuação do falecido australiano. Deixo aquela que, quando a mim, será uma das cenas que ficará imortalizada na história do cinema. Na minha, enquanto fã de cinema, ficou.

Um amigo meu ficou intrigadíssimo com a minha preferência por Mickey Rourke e pela defesa que lhe faço de que ele é, realmente, um bom actor (ou pelo menos já foi). Em The Wrestler anunciam o seu renascimento, se bem que confesso já ter ficado convencido em Sin City. Depois de vários erros a nível profissional – andou perdido vários anos em filmes medíocres – Rourke ainda vai a tempo de recuperar aquela aura que conferiu a certos filmes no início da carreira. A esse meu amigo recomendei-lhe três, nomeadamente Barfly, baseado numa semi-autobiografia de Charles Bukovski, Angel Heart, onde se pode gabar ser dos poucos a roubar o protagonismo a Robert de Niro, e, o meu preferido, Rumble Fish. Este filme algo esquecido de Coppola, baseado no romance de S. E. Hinton, merece sem dúvida outro tipo de atenção. Visual e sonoramente muito estimulante, o filme roda em volta da personagem de Motorcycle Boy (Mickey Rourke), um antigo líder de gang que vive atormentado por esses dias, e a sua relação com o irmão mais novo (Matt Dilon), que vive na sombra da reputação do irmão mais velho. O filme está recheado de cenas memoráveis e é sem dúvida algo a recuperar. Essa pode ser outra vantagem da vitória de Rourke, aproveitarem-se do seu novo mediatismo para fazer lucrar com alguns destes filmes que ficaram num circuito mais reduzido. Ou então recuperam aqueles que devem ficar enterrados, como Wild Orchid ou Nine 1/2 Weeks…Deixo então duas das melhores cenas de Rumble Fish:


Foram hoje divulgados os nomeados aos Óscares deste ano. A saber:

 

Melhor Filme:

The Curious Case of Benjamin Button

Frost/Nixon

Milk

The Reader

Slumdog Millionaire

 

Melhor Actor:

Richard Jenkins

Frank Langella

Sean Penn

Brad Pitt

Mickey Rourke

 

Melhor Actriz:

Anne Hathaway

Angelina Jolie

Melissa Leo

Meryl Streep

Kate Winslet

 

Melhor Actor Secundário:

Josh Brolin

Robert Downey Jr.

Philip Seymour Hoffman

Heath Ledger

Michael Shannon

 

Melhor Actriz Secundária:

Amy Adams

Penélope Cruz

Viola Davis

Taraji P. Henson

Marisa Tomei

 

Melhor Realizador:

Danny Boyle

Stephen Daldry

David Fincher

Ron Howard

Gus Van Sant

 

E como toda a gente, também eu tenho as minhas apostas. Confesso que seria uma desilusão enorme principalmente se Mickey Rourke não vencesse. Não será certamente o melhor actor de todos aqueles, mas Aronofsky faz milagres…

taxiSomeday a real rain will come and wash all this scum off the streets.

Martin Scorsese, Taxi Driver, 1976

 

em tempos de crise, valha-nos os clássicos

annie_hall1

After that it got pretty late, and we both had to go, but it was great seeing Annie again. I… I realized what a terrific person she was, and… and how much fun it was just knowing her; and I… I, I thought of that old joke, y’know, the, this… this guy goes to a psychiatrist and says, “Doc, uh, my brother’s crazy; he thinks he’s a chicken.” And, uh, the doctor says, “Well, why don’t you turn him in?” The guy says, “I would, but I need the eggs.” Well, I guess that’s pretty much now how I feel about relationships; y’know, they’re totally irrational, and crazy, and absurd, and… but, uh, I guess we keep goin’ through it because, uh, most of us… need the eggs.

Woody Allen, Annie Hall, 1977

 

 

primeiro filme visto em 2009