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Category Archives: ofício

Creio que neste texto o autor revela uma enorme vontade de comunicar com o leitor, mas através de um encadeado de acções parece algo vago. Como se não o quisesse fazer de forma normal, como tivesse algo de tão importante a dizer que tem receio de o dizer.

 

Comentário de uma aluna cinco minutos depois de ler pela primeira vez António Lobo Antunes. Ainda há esperança.

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pois é, falo do benfica aqui.

the_failed_escape

percorrendo as palavras com estilhaços, a intensidade

de um grito devasta o que lentamente se constrói.

 

não é álcool, não é sangue,

é a carne que se incendeia.

 

sodoma não arde.

sodoma é fogo.

 

Foto: Aires Ferreira, The Failed Escape

Esta é para o Hugo, que me pediu para lembrar o poema. Ele é que mo lembrou a mim.

 

2008-aqma

Queria deixar-te como te encontrei:

um sorriso juvenil do qual criámos

uma estação sem vento, onde o amor

vive em cada retrato nu e nas palavras

florescia o amor cru do poema. Assim o

fazíamos crer. Somos tão melancólicos

e tão estúpidos. Como se o tempo, ou

as palavras ou as imagens que recordamos

ainda tantos anos depois fossem algo mais

que esta fotografia. Toda esta caligrafia do

teu corpo. O retrato tinha a minha angústia,

as palavras o teu rosto. Lembra o poema.

 

É o que nos resta daquele mês de Agosto.

 

 

Foto: Aquele querido mês de Agosto, Miguel Gomes

 

 

Já saiu o nº2 da Ezine Serpente, dirigida pelo meu caro amigo Aires Ferreira, que aqui coloca a generosa crítica que me fez a Parabola Abyssus. Para download, clicar aqui.

A voz de Heitor

 

no húmido alfabeto dos antípodas o desejo
escrevia-se com as letras do teu nome. agora
que partes num silêncio infinito foi-me
arterialmente arrancado da carne o sussurrar
sanguíneo dos mortos. tu que és mulher, és
minha carne, meu sexo, minha mãe e meu
fulminante respirar. temo o teu tempo que
tento terminar. vejo com olhos de cego
a última linguagem solar das palavras, a tua
figura fundida em gestos de som, o que oiço
é a música final dos nossos versos, e assim
terminam os nossos corpos com o sonho
do meu incêndio, da tua morte.

e Ahjtur, sábia nas lides da morte responde

sossega mulher, nesta caligrafia onde as nossas vozes
se confundem, nunca em tempo algum viveu alguém
mais do que aquilo que os deuses lhe concedem.

 

 

Poema que já data de 2007 mas que agora viu a luz do dia n´A Corneta do Diabo, folhetim que a Telemaquia mantém na Faculdade de Ciências Socias e Humanas de Lisboa. A eles, um abraço.

Por Espanha, em breve, ele irá andar em mãos granadinas. Por cá, fica para quem o quiser ler. Foi (re)criado precisamente em Granada, a partir da exposição de Paco Sánchez como ali em baixo conto. As fotografias e os seus textos originais podem ser vistas/lidos aqui. O que fica em seguida é a minha versão.

 

Lisboa, nostalgia do futuro

A partir da exposição de Paco Sánchez

 

há um pressentimento de sono sem fim
refugias-te num quarto de pensão e dormitas
o dia todo – para que lisboa te esqueça

Al Berto, lisboa (4)

 

 

I

 

o mar engole as ruas de lisboa e tu acordas perdida

na cidade

acordas perante o resplandecer copular da pedra

a velocidade interminável da luz

a saudade da voz que te comunica o ranger dos corpos

 

há sempre na cidade um excesso de sílabas

uma página sem língua sem sentido caligráfico

as ruas virgens e a voz

sempre a voz anunciando-te:

 

serás o sabor inquieto da noite, o perfil atlântico da cidade e o poema que se despede nos teus lábios.

 

serás o destino dos homens melancólicos, a amante marítima dos povos distantes e serás, acima de tudo serás lisboa.

 

II

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

aceso de um fogo astrológico sedento de amor

sedento de uma constelação mais distante mais clara

de uma luz secular onde a arte antiga do tempo envelhece

o perfume matinal deste nosso jardim

 

eu sou a imperfeita vertigem da morte, tenho

nas mãos o sorriso aberto das palavras.

 

por ti cantei inúmeras memórias de crianças,

deixei meu nome voar entre a boca dos marinheiros

e

repito com o esplendor do rio o vento que se ergue

na derradeira colina.

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

diluído com o inexistente sangue com o vermelho

efervescente de um crepúsculo qualquer

desconfio que eles se confundem com a esquina

incendiada do mundo

 

no meu leito nasceram os alicerces desta terra, do meu ar respiram os amantes o seu fruto de cada manhã.

 

o meu amor é antigo, antigo como os versos do mar.

ouve: percorre pela névoa branca o caminho da luz,

nestas ruas esperam-te poetas renascidos pela saudade

da cidade

 

III

 

o mar engole as ruas de lisboa e tu acordas perdida

no tejo

acordas ao movimento dos barcos a formação rítmica

da cidade a despertar de um sonolento partir

que trazia o regresso escrito nos portos

 

amanhece e o reflexo dos vidros desvenda a silhueta

reflexo azulado de um rio faminto cujas águas

não se cansam com o tempo e a tempestade

sussurra nos nosso ouvidos como uma profecia:

 

nos teus braços nossos filhos falarão de amor, pela palavra irão percorrer os corpos virgens da voz.

 

de ti os poetas irão criar uma mulher, dar-te-ão sexo e a sensualidade tímida de uma amante cujo nome se lê nas ruas.

 

IV

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

há uma pausa simétrica um vago som que pelo dom

não permite o fluir da canção

há um mar que pelo ar repreende a palavra sem tristeza

sem brilho ou coração

 

tens na morte o refúgio prometido pelas estações,

pela crepitação vertiginosa da terra.

 

viajas ao sabor do vento, permites que outros povos

te penetrem e usem o teu corpo sabendo bem

ou

desconhecendo o nome por quem todas as manhãs

os homens acordam.

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

na ressurreição do outono cumpre-se o ciclo

cumpre-se o desfalecimento dos braços de teus filhos

o tardar das chuvas e dos anos em que vagarosamente

dançámos ao som do tejo

 

que as flores te cubram a pele, esconda o teu corpo

de sedentas estrelas.

 

o meu amor é antigo, antigo como os versos do mar.

imagina: em ti se irá erguer um país, um país

tão grandioso como a tristeza dos pássaros fechados

na cidade.

 

V

 

o mar engole as ruas de lisboa e tu acordas perdida

na palavra

o silêncio flúi como uma vagarosa nebulosa acende-se

a lua nas linhas impossíveis de um solo uma árvore cresce

e dos seus frutos ergo a última sílaba de lisboa

 

procuramos escrever a oscilação do corpo a flexibilidade

da linguagem urbana personificada nas travessas cintilantes

e tu sempre tu

retornas ao abismo nostálgico do grito:

 

o dia caminha para uma constelação que nunca ousei visitar, onde perdi a agonia matinal de te esquecer.

 

tens no olhar a forma do universo, como se uma palavra germinasse segura em teus dedos invioláveis.

 

VI

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

a exactidão jubilante do fogo irrompe as trémulas réstias

da noite pintando-a de vermelho cor da génese e do

amor perpetua-se a luz até ao último canto

ao último verso do poema lisboa

 

escreves e descreves na tua pele cada pessoa que te habita,

cada segredo nocturno dos teus nómadas.

 

deambulas perante um verbo absoluto, acreditas

no retorno irredutível do mar, de seus marinheiros

e

deixas-te aportar sobre um solo envelhecido

levemente beijados pelas aves.

 

acordo perdida na cidade e o mar percorre-me nas veias

mais outro Inverno vibrará perante o instrumento

tocado pelas árvores o vento delicadamente interiorizando

a matriz central onde albergo os hóspedes eternos

desta e outras minhas canções de lisboa mulher

 

partes para beijar os seios puros da colina, anoiteces

ciclicamente como as estações.

 

o meu amor é antigo, antigo como os versos do mar.

ama: no sémen resta o verso livre de um poema

anónimo, um poeta sem forma e sem sentido senão

o de te amar.

 

VII

 

e acordas lisboa:

 

a ondulação do corpo que o tejo te seduz

o pássaro cuja asa ao vento nunca se reduz

dum sopro cósmico onde a liberdade se respira

uma frágil dança rodeando uma serpente admira

a ténue fronteira entre o que digo e o que direi

foi nesta terra insegura onde cresci e sonhei

e és lisboa caligrafia das constelações distantes

sinfonia poema e mulher de inúmeros amantes

 

aprendes a escrita dos poetas e com eles fabricas a última

morada das palavras.

 

fixas o solo em teu corpo, inscreves lágrimas subterrâneas

nos túmulos dos deuses.

 

o mar engole as ruas de lisboa e tu acordas perdida

em ti

esqueces o último habitante que te abandonou e amas

amas como quem nunca mais viverá uma paixão igual

amas como lisboa sempre amará a ávida paginação

do silêncio

 

serás o sabor inquieto da noite, o perfil atlântico da cidade e o poema que se despede nos teus lábios.

 

serás o destino dos homens melancólicos, a amante marítima dos povos distantes e serás, acima de tudo serás lisboa.

 

 

rui alberto